quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

''O início de um segundo encontro”

O segundo antes do primeiro beijo. As incontáveis horas que meu coração parecia parar, ou seriam milésimos de segundos?
Eu nem soube o que responder, mas lembro como nossas mãos se encaixavam. Minha mão na sua calça jeans, o primeiro ato do primeiro encontro, línguas girando em céus da boca e toda uma ansiedade contida em forma de estralos de dedos e goles na cerveja.
Você, seu sorriso quando me faz rodar como uma bailarina, você, seus dedos enfiados na gola do meu vestido; eu não sei de onde você vem, não sei se prefere a dor aguda de uma dor de cabeça ou a rapidez de um golpe, o que me impede de avançar e entrar nas suas fronteiras, de te pedir para arrebentar as pérolas de meu colar e se acalentar em meu colo - assim, a agonia se empoleira no meu estômago, enchendo-o de bichos saltitantes a medida que você cede as forças da sua batalha.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Na nossa infância, congelavamos suco e fingiamos que era sorvete, faziamos trilhas em bando no
meio do matagal, e nesse ocasião eu sempre aproveitava para colher dentes de leão. 
Eu tinha medo de escalar as árvores mas mesmo assim o fazia; me jogava depois de subir, dos galhos mais altos, caindo sob o chão com os joelos ralados, veias arrebentadas e mãos arranhadas.
Me deitava de cara pra parede, imaginando milhares de desenhos ali, na manhã seguinte eu me levantava para fazer bolos de terra e sapatos de lata.
Como era puro o sonho infantil. Eu me dava conta que estava de baixo de uma galáxia cheia de estrelas e que aquilo era tudo passageiro. Não tinha medo. Uma criança feita de mármore. Corria. Não olhava, e ria, com as mãos entre a boca.
- Por que você grita tanto? - me perguntavam, eu era só uma criança, mas não poderiam me calar. Eu cresci em silêncio, mas no primeiro ato, da forma que eu escalava árvores, com meus sapatos de latas, comecei a gritar. Meus dedos hoje, assim como eu, não se calaram, e ainda bem, que ninguém tira da minha memórias, essas pequenas lembranças.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Ghost

Felipe.
Peço que você saia da minha vida da mesma maneira que entrou; do nada. A esmo, no espaço.
Sei que você já saiu por conta própria, com sua melhor postura de durão; o peito inflado, o cigarro na mão, rindo das minhas lágrimas secas.
Eu sei.
Você é um fantasma, e assim agem fantasmas; entram e saem do nada, numa fração de segundo que toca uma fagulha, evapora, quebra e ferve, tudo de uma vez só, tudo sem explicação, apenas pelo gosto do estrago, do medo do outro, dos olhos que se reviram, da língua que é mordida pelos dentes pontudos dos que ainda querem amar alguém, e ainda quero, Felipe, embora meu estômago se revira a todo momento que alguém tem a ideia absurda de tocar meus poros de maneira íntima, fazendo com que sua voz entre nos meus ouvidos mesmo você sendo um fantasma e não estando mais aqui (físico, mesmo nunca estando), eu ainda quero.
Conheço tantos lugares, areias, tijolos e edifícios. Conheço centenas de garotos de olhar castanho e linguajar ríspidos. Nenhum deles balança meus quadris nem me faz soar as mãos como você.
Mas você é um fantasma, já não volta mais aqui. Eu te exorcei, expulsei. Vá para o inferno, não vá voltar.

A mulher de peixes que eu mais amo

Vovó, 
nunca escrevi sobre você, porque nunca me passou pela cabeça já que só escrevo quando estou triste.
Não tenho muito o que dizer, apenas que ela deveria ser metade do que você é e fazer metade do que você faz, e ter metade da coragem que você tem.

São tantas as lembranças boas e os agradecimentos; as risadas no fim de tarde no rancho, o cheiro do almoço no fogão a lenha, os números para jogar na MegaSena que sempre me pedia porque achava que eu tinha o dom da adivinhação...

Vó, você sabe de tudo no seu humilde mundo, sabe até contar o infinito apenas cozinhando numa panela simples enquanto me faz rir na beirada da mesa... A metade da sua sabedoria se encontra no tamanho da capacidade que você me ensinou do que é amor e coragem.