terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O oceano está separando nossas fumaças de cigarro


Eu tinha medo de te falar, e te dizer, tudo que eu sentia por você; tinha medo de olhar nos seus profundos olhos castanhos enquanto fumávamos, tinha medo de sorrir quando dançávamos...
Daí você se foi, triste, raivoso, se foi - agora um oceano nos separa; separa nossos medos, separa nossa ansiedade boba de sábado a noite, separa as feridas, separa nossa vergonha, e nossos corações amargurados.
Olharei para as ruas tão cheias de gente vazia, ruas sujas e quentes, onde costumávamos andar, passear, nos encontrar e não te acharei mais por lá. 
Não te acharei mais entre as luzes coloridas da pista da dança.
Não te encontrarei mais no fim da noite, eu bebada, com alguém dependurado em meus braços e você largado, drogado, na sarjeta - porque agora, um oceano está separando as fumaças de cigarro que costumávamos dividir todo sábado a noite, no centro iluminado da cidade perdida.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Estou em um táxi com Tristessa, bêbado, com uma garrafa de uísque Juarez Bourbon no malote de dinheiro da ferrovia que eles me acusaram de roubar da estrada de ferro em 1952 – aqui estou eu na Cidade do México, um sábado à noite chuvoso, mistérios, velhas ruas laterais de sonho e sem nomes passam vertiginosamente, a ruazinha onde eu caminhara por entre multidões de vagabundos índios enrolados em mantas trágicas, suficientes para fazer você chorar, e você achou ter visto facas reluzindo sob as dobras – sonhos lúgubres tão trágicos quanto aquele da Velha Noite da Estrada de Ferro, com meu pai sentado com suas coxas grandes no vagão de fumantes da noite, cochilando enquanto seguia pelos trilhos vastos, enevoados e tristes da vida – mas agora estou no alto daquele platô vegetal que é o México, a lua de Citlapol com quem eu esbarrara algumas noites antes no telhado sonolento a caminho do antigo banheiro de pedra com goteira – Tristessa está doidona, linda como sempre. Vai alegre para casa deitar na cama e curtir sua morfina.

Noite anterior tive uma discussão silenciosa na chuva sentado com ela nos balcões sombrios da meia-noite comendo pão com sopa e bebendo Delaware Punch. Saí dessa conversa com a visão de Tristessa em minha cama, em meus braços, a estranheza de seu rosto amoroso, asteca, garota índia com olhos de Billie Holliday misteriosos e semicerrados e com uma grande voz melancólica como as atrizes vienenses de rostos tristes como Luise Rainer que fizeram toda a Ucrânia chorar em 1910.
Curvas lindas em forma de pêra moldam a pele de seu rosto, que tem pestanas compridas e tristes, e uma resignação de Virgem Maria, e uma compleição cor de café e textura de pêssego e olhos de um mistério impressionante com uma falta de expressão de profundidade rasteira, meio desdém meio um lamento de dor pesaroso. “Estou doente”, ela sempre diz para mim e Bull enroscada na almofada. Estou na Cidade do México em um táxi com os cabelos desgrenhados, e enlouquecido. Passo pelo Cine México em meio a engarrafamentos chuvosos bebendo da garrafa. Tristessa tenta se explicar em arengas longas que na noite anterior, quando a botei em um táxi, o motorista tentou agarrá-la e ela deu um soco nele, uma notícia que o motorista atual recebeu sem comentários. Vamos até a casa de Tristessa para sentar e ficarmos doidões. Tristessa já me avisou que a casa está uma bagunça porque sua irmã está bêbada e doente e El Indio estará lá sentado majestosamente com uma agulha de morfina espetada no braço moreno, os olhos vidrados olhando para você, ou esperando que a espetada da agulha traga a própria chama e falando “Hmmm, za… a agulha asteca em minha carne flamejante”. Muito parecido com o gato grande em Culiao que me apresentou 0 na vez em que eu vim ao México para ver outras visões. Minha garrafa de uísque tem uma tampa mexicana frouxa estranha. O tempo todo eu acho que ela vai se soltar e deixar toda a minha bolsa afogada em uísque com 43% de álcool.
Pelas ruas enlouquecidas de sábado à noite com chuva como Hong Kong, nosso táxi avança devagar por entre os caminhos do Mercado e saímos no bairro da rua das putas e saltamos atrás das barracas perfumadas de frutas e dos quiosques de tortillas, feijão e tacos com bancos fixos de madeira – o bairro pobre de Roma.
Pago os 3,33 do táxi com dez pesos e peço “seis” de troco, que recebo sem qualquer comentário e me pergunto se Tristessa acha que ostento e sou perdulário demais, o grande John Bêbado no México – Mas não tenho tempo para pensar, andamos apressados pelas calçadas escorregadias com reflexos de néon e da luz das velas  dos ambulantes que vendiam castanhas sobre um pano sentados no chão – entramos rapidamente na viela fedorenta onde ficava a casa de cômodos de um andar – Quando entramos, passamos por torneiras gotejantes, baldes e meninos. Nós nos abaixamos para passar por baixo de roupa pendurada e chegamos à sua porta de ferro, que está destrancada naquele interior de adobe, e nós entramos na cozinha, a chuva ainda pingando das chapas de metal e tábuas que serviam como telhado da cozinha – e permitiam que gotinhas caíssem ruidosamente na cozinha sobre o lixo da galinha no canto úmido – Onde agora, miraculosamente, vejo o gatinho rosa dando uma mijadinha sobre pilhas de restos de quiabo e comida de galinha. O quarto lá dentro está completamente imundo e bagunçado, como se tivesse sido saqueado por loucos, com jornais rasgados espalhados e galinhas comendo arroz e pedacinhos de sanduíches do chão – A irmã de Tristessa está na cama, doente, enrolada em uma colcha rosa – é tão trágico quanto a noite em que Eddy levou um tiro na chuvosa Russia Street -
*
Jack Kerouac
Tristessa

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

As estradas de 87



Imagine quanto tempo se passou desde que aquele ônibus partiu pela estrada pedregosa? Era maio de 87, lembro-me bem.
Levava consigo uma flor no cabelo e mil lágrimas, cada uma pra um alguém, cada um com um motivo, mas todas com motivos de saudade.
Foi-se tua primeira vez na cidade, primeira vez que pode andar com tuas próprias pernas sem ter medo do escuro, sem ter medo de barulhos. Vestia um lindo vestidinho azul e sapatinhos de salto. 


No cair da noite, íamos para a praia, tomar limonada e papear, mas era na madrugada, que pulávamos a janela e íamos para a rodoviário, observar todas aquelas pessoas pegarem destinos diferentes, cada um seu ônibus, seu acento, em sua bifurcação diferente; cada um pegava sua própria estrada, embrulhados com um punhado de flores e terras, com o mundo nos olhos e o brilho nas mãos, sem pensar na volta, apenas indo, na ída - era assim que víamos as madrugadas em abril de 87, você com seu vestidinho azul, aos sorrisos.
Chegou maio de 87, e agora, era você quem ia, se mandava, pegava o ônibus de volta, por mais que queria permanecer, naquele dia, tu fostes embora com lágrimas nos olhos e na sua memória você pertencia a rodoviária, sentada nos banquinhos, agarrando teus próprios pés e imaginando: ''Aonde todos vão?''

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Baby i'm radioactive

Meu coração é radioativo; quem o toca, se machuca. Tem ferimentos, é dolorido, fica dilacerado.
Faz em mim; machuca mais ainda, dói mais- meu coração bombeia todo o topor de sentimentos malucos de dez em dez segundos e depois murcha e esfria por dias, até que começa a bombear tudo de novo, num loop infinito, sem parar, sendo tocado cada hora por alguém tão inocente, que baseia o amor em meu rosto infantil e delicado, sendo totalmente enganado por uma máscara - por trás dessa, existe amargura e confusão.

Toque-me.. E se dilacere...

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Bad b*tch, ops WITCH

Poderia em meu mais doce sonho, descrever-lhe a face que me alimenta a cada dia? Poderia em meu mais obscuro e medonho pesadelo, descrever-lhe como eu tinha medo do ursinho de pelúcia de olhos vermelhos que ficava na cômoda de minha prima?

Desde que cheguei nesse porão imundo, onde me colocaram, ELES ME COLOCARAM! Eu te juro!! Desde que cheguei aqui eu não posso mais ver as flores de cerejeira cairem na grama cor de esmeralda, nem cortejar o luar que sorri pra mim nas noites em que eu tomava chá na varanda de casa.
Me colocaram como um medonho animal nesse porão. Me dão alguns restos de pão, até de ração e sardinha vencidos. Eu choro. Choro todo dia.
Eu não sabia, não sabia que.. A linhagem que eu pertencia era perigosa; daqui um ano eu não iria me conseguir mais controlar, morderia até animais, sem dó nem piedade.

Tudo começou quando eu estava na casa de Vitty, estavamos fazendo bolo de chocolate. Ela chamou seu namorado para nos fazer companhia e estava chovendo. De repente, o barulho da batedeira, da chuva, dos relâmpagos, trovões e estalos de beijo começaram a me irritar - irritando a tal ponto que coloquei minhas mãos dentro da batedeira para para-lá, mas nada aconteceu comigo, apenas deu um queda de energia.
Eu gritava, e meus olhos estavam arregalados como de um gato no banho.
O que eu acabara de fazer?

Contei o acontecimento para minha mãe mais tarde, assustada, olhando a serpente que meu irmão guardava em nosso quarto, rastejar pelo seu terrário.
Rapidamente mamãe chamou meu pai, e eles me trancaram no porão, em meio a gritaria.
- Você é a mais perigosa, e nem sequer entrou no Coven... - disse minha mãe.
- Por isso a manteremos aqui até ela cessar. Até completar 16 anos, assim poderá entrar pro Coven e melhorar seus poderes.

PODERES?
COVEN?

Minha mente girava, dóia também. Eu queria chorar, mas aberração não chora. Então, comecei a refletir, refletir sobre tudo, enquanto espero nesse porão, meu aniversário de 16 anos chegar... Calma, menina, ainda faltam 5 meses...

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Black beauty

Em meio as cartas de baralho e as bolas de bilhar, você estava lá, fumando o melhor cigarro que poderia comprar com seus míseros 5 reais, bebendo refrigerante com vodka e falando com seus amigos.
Eu estava com meu melhor vestido comprado em qualquer loja de departamento e com o batom vermelho de sempre.
Fui até a sacada do apartamento, observar as estrelas, a lua, o vasto e escuro céu. Não o achava sombrio, eu gostava. Também não te achava sombrio, mesmo você carregando toda a tristeza nos seus olhos e todo o medo na sua risada; era tão suave e seu jeito tão desengonçado - parecia um moleque de 16 anos.

Meu maiô incomodava, ele estava muito pequeno, mas era o mais bonito; vermelho com bolinhas brancas. Eu havia ganhado de meu avô no meu aniversário de 14 anos e agora eu tinha quase 20 - minhas pernas não eram tão finas como antes.
Fomos caminhar na praia, só nós dois. Seus cabelos tão escuros e encaracolados, um jeito tão bonito ao me levar até o mar.
''O que é o mar senão uma imensidão de água salgada, ondas batendo, quebrando em recifes, formando corais, abrigando peixes?'' - você me perguntou enquanto caminhávamos sentindo as ondas se quebrarem na areia e nos nossos pés.
''Quando pequena, quis eu ser sereia ou então selkie. Viver no mar. Sabe? Eu sempre achei que essa imensidão trazia algo mais...'' - respondi-lhe, pegando em suas mãos. Tão quentes e macias. Colidimos em temperatura.
Beijo. Risadas. Ondas no fundo.
Soltamos suspiros...
''Eu queria ser um personagem de anime. Poderes e cabelos coloridos. Olhos cor de violeta. Lutar contra o mal. Vencer. Essas coisas...'' - você sempre conseguia ser criança. Ser inocente, e engraçado...

O milkshake que eu pedi era de baunilha e o seu de chocolate com amendoim. Nossos gostos eram distintos até na hora de comer, não acha?
''Suas unhas ficam bonitas pintadas de preto.'' - sua voz estava rouca.
''Combinam com seus olhos, seu cabelo.'' - dei um gole na baunilha.
''Meu humor?''
''Quando eu te disse na praia que sempre achei que o mar, que sua imensidão trazia algo a mais... Você se lembra?''
''Lembro, querida...''
''Eu também pensei nisso ao ver seus olhos. Ver sua alma. Seu jeito.. Sua imensidão escura. Escura como a noite que nos conhecemos.. Sua imensidão. Sua imensidão, da tua alma, dos teus olhos, do teu cabelo..'' - e você não me deixou terminar a frase pois começou a me enxer de beijos e suspiros, mas agora, eu te digo: sua imensidão me provou que tinha algo a mais; uma beleza escura e tão bonita de se ver...

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

 
Akai Ito significa "Fio Vermelho" e teve origem na China, durante o período Hokuso. Segundo a lenda original chinesa, todos nós temos uma corda vermelha (invisivel aos olhos humanos), amarrada ao nosso tornozelo, que nos liga à nossa alma gémea, a pessoa com quem estamos destinados a passar o resto da nossa vida não importando a situação. Então é isso mesmo que o Akai Ito é: "Um fio vermelho invisível que conecta os que estão destinados a conhecer-se, independentemente do tempo, lugar ou circunstância. O fio pode esticar-se ou emaranhar-se mas jamais se quebrará." Quanto mais longo for o fio, mais longe e tristes as pessoas destinadas estão e vice versa... (Quanto mais curto for o fio, mais perto e mais felizes as pessoas destinadas estão.) A lenda espalhou-se pelo espalhou-se pelo Leste Asiático (Japão & Coreia) e foi incorporada no folclore oriental, sofrendo apenas algumas modificações. A versão mais conhecida desta lenda é a versão nipônica (Japão), na qual a corda passa a ser um fio fininho e o tornozelo passa a ser o dedo mindinho. Um fio fino vermelho (diz-se que é de algodão), também invisível aos olhos humanos, é amarrado, pelos deuses ao dedo mindinho dos futuros amante. Como estamos falando de alma gêmeas, apenas duas pessoas podem estar conectadas... Por isso, não importa quantos relacionamentos tenhamos, pois só viveremos a "experiência do verdadeiro amor" com a pessoa que estiver na outra ponta do Fio Vermelho.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Devaneios de primeiro de janeiro

Tentei-lhe mandar todas as cartas atrasadas pelo correio e os cadarços de seu tênis por pombo correio, porém todo o dia que eu tinha para fazê-los eu gastei comprando brigadeiro e uma faixa de cabelos. Me desculpa, de verdade, quem sabe no próximo ano, eu deixe de gastar minha grana com besteiras, esqueça de comprar os fogos e compre selo para mandar tuas cartas. Quem sabe, eu cresça.