quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

As estradas de 87



Imagine quanto tempo se passou desde que aquele ônibus partiu pela estrada pedregosa? Era maio de 87, lembro-me bem.
Levava consigo uma flor no cabelo e mil lágrimas, cada uma pra um alguém, cada um com um motivo, mas todas com motivos de saudade.
Foi-se tua primeira vez na cidade, primeira vez que pode andar com tuas próprias pernas sem ter medo do escuro, sem ter medo de barulhos. Vestia um lindo vestidinho azul e sapatinhos de salto. 


No cair da noite, íamos para a praia, tomar limonada e papear, mas era na madrugada, que pulávamos a janela e íamos para a rodoviário, observar todas aquelas pessoas pegarem destinos diferentes, cada um seu ônibus, seu acento, em sua bifurcação diferente; cada um pegava sua própria estrada, embrulhados com um punhado de flores e terras, com o mundo nos olhos e o brilho nas mãos, sem pensar na volta, apenas indo, na ída - era assim que víamos as madrugadas em abril de 87, você com seu vestidinho azul, aos sorrisos.
Chegou maio de 87, e agora, era você quem ia, se mandava, pegava o ônibus de volta, por mais que queria permanecer, naquele dia, tu fostes embora com lágrimas nos olhos e na sua memória você pertencia a rodoviária, sentada nos banquinhos, agarrando teus próprios pés e imaginando: ''Aonde todos vão?''

Nenhum comentário:

Postar um comentário