segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Estou em um táxi com Tristessa, bêbado, com uma garrafa de uísque Juarez Bourbon no malote de dinheiro da ferrovia que eles me acusaram de roubar da estrada de ferro em 1952 – aqui estou eu na Cidade do México, um sábado à noite chuvoso, mistérios, velhas ruas laterais de sonho e sem nomes passam vertiginosamente, a ruazinha onde eu caminhara por entre multidões de vagabundos índios enrolados em mantas trágicas, suficientes para fazer você chorar, e você achou ter visto facas reluzindo sob as dobras – sonhos lúgubres tão trágicos quanto aquele da Velha Noite da Estrada de Ferro, com meu pai sentado com suas coxas grandes no vagão de fumantes da noite, cochilando enquanto seguia pelos trilhos vastos, enevoados e tristes da vida – mas agora estou no alto daquele platô vegetal que é o México, a lua de Citlapol com quem eu esbarrara algumas noites antes no telhado sonolento a caminho do antigo banheiro de pedra com goteira – Tristessa está doidona, linda como sempre. Vai alegre para casa deitar na cama e curtir sua morfina.

Noite anterior tive uma discussão silenciosa na chuva sentado com ela nos balcões sombrios da meia-noite comendo pão com sopa e bebendo Delaware Punch. Saí dessa conversa com a visão de Tristessa em minha cama, em meus braços, a estranheza de seu rosto amoroso, asteca, garota índia com olhos de Billie Holliday misteriosos e semicerrados e com uma grande voz melancólica como as atrizes vienenses de rostos tristes como Luise Rainer que fizeram toda a Ucrânia chorar em 1910.
Curvas lindas em forma de pêra moldam a pele de seu rosto, que tem pestanas compridas e tristes, e uma resignação de Virgem Maria, e uma compleição cor de café e textura de pêssego e olhos de um mistério impressionante com uma falta de expressão de profundidade rasteira, meio desdém meio um lamento de dor pesaroso. “Estou doente”, ela sempre diz para mim e Bull enroscada na almofada. Estou na Cidade do México em um táxi com os cabelos desgrenhados, e enlouquecido. Passo pelo Cine México em meio a engarrafamentos chuvosos bebendo da garrafa. Tristessa tenta se explicar em arengas longas que na noite anterior, quando a botei em um táxi, o motorista tentou agarrá-la e ela deu um soco nele, uma notícia que o motorista atual recebeu sem comentários. Vamos até a casa de Tristessa para sentar e ficarmos doidões. Tristessa já me avisou que a casa está uma bagunça porque sua irmã está bêbada e doente e El Indio estará lá sentado majestosamente com uma agulha de morfina espetada no braço moreno, os olhos vidrados olhando para você, ou esperando que a espetada da agulha traga a própria chama e falando “Hmmm, za… a agulha asteca em minha carne flamejante”. Muito parecido com o gato grande em Culiao que me apresentou 0 na vez em que eu vim ao México para ver outras visões. Minha garrafa de uísque tem uma tampa mexicana frouxa estranha. O tempo todo eu acho que ela vai se soltar e deixar toda a minha bolsa afogada em uísque com 43% de álcool.
Pelas ruas enlouquecidas de sábado à noite com chuva como Hong Kong, nosso táxi avança devagar por entre os caminhos do Mercado e saímos no bairro da rua das putas e saltamos atrás das barracas perfumadas de frutas e dos quiosques de tortillas, feijão e tacos com bancos fixos de madeira – o bairro pobre de Roma.
Pago os 3,33 do táxi com dez pesos e peço “seis” de troco, que recebo sem qualquer comentário e me pergunto se Tristessa acha que ostento e sou perdulário demais, o grande John Bêbado no México – Mas não tenho tempo para pensar, andamos apressados pelas calçadas escorregadias com reflexos de néon e da luz das velas  dos ambulantes que vendiam castanhas sobre um pano sentados no chão – entramos rapidamente na viela fedorenta onde ficava a casa de cômodos de um andar – Quando entramos, passamos por torneiras gotejantes, baldes e meninos. Nós nos abaixamos para passar por baixo de roupa pendurada e chegamos à sua porta de ferro, que está destrancada naquele interior de adobe, e nós entramos na cozinha, a chuva ainda pingando das chapas de metal e tábuas que serviam como telhado da cozinha – e permitiam que gotinhas caíssem ruidosamente na cozinha sobre o lixo da galinha no canto úmido – Onde agora, miraculosamente, vejo o gatinho rosa dando uma mijadinha sobre pilhas de restos de quiabo e comida de galinha. O quarto lá dentro está completamente imundo e bagunçado, como se tivesse sido saqueado por loucos, com jornais rasgados espalhados e galinhas comendo arroz e pedacinhos de sanduíches do chão – A irmã de Tristessa está na cama, doente, enrolada em uma colcha rosa – é tão trágico quanto a noite em que Eddy levou um tiro na chuvosa Russia Street -
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Jack Kerouac
Tristessa

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