Me perdoa por eu sentir medo de tudo. Me perdoe mais ainda por compartilhar meu medo com você.
Eu não queria, não queria isso.
Meu coração é o grande cânion e não desagua pra nenhum mar; sou tão 80 quanto você é 8. Minha mente explode enquanto a sua dorme em epifânias.
O que seria de nós, afinal, se não fôssemos dois pesos diferentes em uma balança (cada hora o peso se altera).
Eu me visto com um vestido tão longo que acaba cobrindo minha solidão. Ele engole todo o pranto do meu coração, engole todo o 80 que cabe em mim. Ele é preto também, e isso se camufla ainda mais.
Então, quando você se foi, todas as noites eu guardava muito bem meu Grande Cânion Coração bem por baixo do Longo Preto Vestido, e ia para as ruas tão podres dessa cidade (as mesmas que costumávamos dividir a balança) em busca de algo que me fizesse voar, como você fez. Mas todos eram tão 80 como eu. Todos apenas serviam para entulhar mais pedras no Grande Cânion Coração.
Passaram-se os dias, mais de 180 dias. Eu não contei, mas eu acho.
Comecei a vestir apenas flores, pequenas flores transparentes que mostravam muito bem minha solidão. Estilhaçavam quem quer as olhasse. Afastava todos porque elas tinham um cheiro forte. Não era fedor, era forte, sabe? Cheiro de ''não olhe para mim''. Era esse.
Só que tuas águas sentiram falta do cânion. Seu 8 do 80. Do peso da balança. E então, eu cedi. Cedi olhando para os rios de água luminosa que guiam minha vida. Eu abandonei o esgoto. Eu abandonei o vestido longo. Eu uso flores, eu sigo rios iluminados.
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